quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Lua minguante



Lua nova, estrela guia, Lola desconhecia a própria idade. Parecia às vezes que minguava de juventude, mesmo que suas belas avantajadas formas contassem história de uma vida longa, vivida, marcada nas linhas do rosto. “Jovens são minguantes, não crescentes” – afirmava ela com toda sua sabedoria lunar. Porque a juventude lhe sugava a concretude do corpo e fazia com que, a cada estalo de desejo, parecesse que a morte estava a rondar. Lola era uma cidade inteira sob o céu estrelado, marcada por luzes, labaredas, brita e medo. Alguma vontade forte, intensa, e o resto era uma perigosa imensidão. Lola um dia foi levada de carro para o abrigo dos loucos.


E foi lá que o tempo dançou insano e ela nunca mais soube o ano, o mês ou o dia da semana. Curiosamente conhecia as horas, que eram horas de sua derradeira rejuvenescência. De mulher marcada ganhou os contornos de uma bela jovem e visitou bailes, homens, namorados. Não quis casar, que era cansativo, e a bela jovem se tornou mocinha, de 15 anos e desengonçada. Sorria aflita em seu corpo lúcido e corria firme com suas pernas livres. De mocinha a pré-púbere, cada vez mais nova, Lola se tornou Lolita e bebê sem colo. E em novembro de seu aniversário terminou o tempo do qual ela era dona. Há quem diga, sem saber, que morria ali uma velhinha torta. Só Lola sabia da dor de ser criança morta. Ou lua crescente que minguou sozinha.
por Carla Carrion

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