Estava em minha casa, ouvindo um noturno de Chopin e arquitetando o SMS perfeito para fisgar minha musa, quando de repente alguém me aciona num Messenger. Era uma moça, e as moças, como se sabe, merecem atenção e mentiras sinceras.
- Você acredita na fidelidade?
- Olha… eu diria que meu sonho é ser fiel.
Aí ela me contou de um velho peguete, a quem ela concedera uma “despedida” antes que ele se casasse, há um ano. Na última semana, no entanto, eles se encontraram, e ele a abordou. Ela indagou: “Ué, mas você não tinha se tornado fiel?”, e recebeu como resposta: “Casei, mas não virei trouxa”.
Isso para ela foi uma decepção, porque achava que ele iria se endireitar, e a irritou muito que a fidelidade fosse considerado um traço feminino. O que não impediu, no entanto, que rolasse naquela mesma noite um ótimo revival, segundo ela.
Eu digo que o rapaz foi infeliz na resposta. Não sabe ele que convém a todo bom canalha mostrar um traço de culpa, até quando se explica para sua amante. Não se pode ser canalha e triunfante ao mesmo tempo, ou ter certeza de sua superioridade sobre todos os homens casados.
O bom canalha é um ilusionista: permite que tanto a oficial quanto a filial acreditem que, em algum lugar de sua alma, existe um canto exclusivo para cada uma delas. Enfim, o bom canalha é aquele que, mesmo sendo infiel, consegue manter acesa a crença de ambas, mulher e amante, na fidelidade.
– Mas por que insistir nessa ilusão da fidelidade, Márvio? – perguntará a leitora – Por que não aceitamos logo que vocês homens são todos uns cachorros, que não podem ver um pedaço de carne disponível, e que não têm o menor talento para a monogamia? E por que você mesmo não começa a latir desde já?
“Au, au”, penso eu. Mas não vou deixar barato para vocês, afinal de contas, tem milhões de bróderes ao redor do mundo que confiam em mim. É muito nóis. E assim respondo, do alto das minhas pirâmides:
Primeiro: há uma culpa que é de vocês. A moça lá do alto poderia ter ensinado a ele uma ou duas coisinhas sobre a fidelidade, em vez de topar um revival. Segundo, que eu mesmo poderia citar aqui um ou outro bróder fiel, todos da vida real, o que só prova que generalizar é sempre um equívoco.
Aliás, um desses meus amigos, que namora uma mulher que é bastante areia para o seu caminhão, me confidenciou:
“Não tenho a menor vontade de chifrar a Fulana, mas ela é ciumentaça. Ela acha que eu passo o rodo geral, só porque a gente se conheceu numa época em que realmente eu tava sem nenhum critério.”
Como ele nunca foi essa coca-cola toda, concluímos juntos que, para ele, o melhor era que ela continuasse pensando assim.


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