A Troca conta o drama de Christine Collins (Angelina Jolie), uma mãe solteira que sofre pelo desaparecimento repentino do seu filho Walter (Gattlin Griffith), de 9 anos. Ela inicia uma exaustiva busca pelo menino, o que acaba por despertar alguns e incomodar muitos. Dirigido por Clint Eastwood (Menina de Ouro), o filme foi lançado em 2008 e recebeu 3 indicações ao Oscar. A história é baseada em um caso real que ocorreu entre os anos 1928 e 1930.
Logo de cara Eastwood já coloca o espectador no clima que pretende antes mesmo de o filme iniciar: quando a logo da Universal surge em seu formato antigo dos anos 30 e a primeira cena começa em preto-e-branco, tomando cor aos poucos. A história que o cineasta conta se inicia em março de 1928, em Los Angeles, e ganha destaque quando o departamento da polícia declara que Walter foi encontrado e será devolvido a sua mãe. No entanto, em meio a policiais e jornalistas, Christine não reconhece seu filho. Em casa com o menino ela tem a certeza de que aquele não é seu filho e passa a pressionar as autoridades para que continuem a busca.
O que Christine demora a perceber é que o departamento de polícia está fazendo de tudo para conseguir camuflar sua incompetência e por isso forja o resgate do garoto. A partir daí se faz possível um paralelo com Sobre Meninos e Lobos, já que ambos pegam um drama de rapto infantil para discutir transmissão de culpa, e com A Conquista da Honra, que também mostra o uso da imprensa pelo alto poder para passar uma imagem que não condiz com a realidade.
Na sua busca, Christine se atém às vias legais até o final porque crê nas fundações do sistema. Ela e Eastwood acreditam que a corrupção não está nas instituições, mas naqueles que as compõem e por isso é dedicado todo o terço final do filme a expurgar essa corrupção.
A construção da personagem de Angelina Jolie merece destaque. Embora se façam presentes alguns cacoetes (propositais!), “é uma personagem bem feminina – sempre educada ao telefone e de modos leves, pela forma como toca o rosto no choro ou mesmo como pede debilmente para um bonde na rua parar - que de repente se descobre num mundo de homens. O vermelho do batom dela, contrastando com a falta de cor dos paletós masculinos, é de uma agressividade febril, como se fossem alienígenas uns aos outros”.
Outra coisa que também merece destaque é a simetria existente na película, presente na concepção do plano, na edição de som e no roteiro. Essa regularidade se dá como um intrincado jogo de equivalências e inversões especulares. Temos dois exemplos disso: a imagem do dito filho de Christine que é um duplo de seu verdadeiro filho, e a correspondência entre Walter e o garoto cúmplice do assassino serial, entre as duas imagens há grande oposições, mas também identificações – ambas são crianças. Isso tudo tem ligação com o título original do filme – Changeling – “traduz-se idiomaticamente por uma criança substituída por outra logo ao nascer ou, sentido mais terrível e adequado ao filme, uma criança defeituosa que se acreditava ter sido trazida por fadas em lugar de outra”.
O diretor mostra muito de sua sensibilidade e inteligência na cena em que o garoto cúmplice de um assassino derrama lágrimas de medo e arrependimento dando uma mostra de sua infância e humanidade. A imagem de medo das crianças leva tensão ao universo adulto (na ficção e fora dela).
Uma crítica bastante feita ao filme é por ele ser muito unilateral: tudo o que o reverendo Briegleb (John Malkovich) diz é o certo, Christine Collins (Jolie) passa o filme sendo física e psicologicamente torturada - sendo o auge em cenas dentro de uma instituição psquiátrica, onde os funcionários são caricaturas (algo que Eastwood já havia feito com a família de Hilary Swank em "Menina de Ouro"). E no fim todo o sofrimento é pago quando a justiça é feita.
O maior efeito, na emoção e na inteligência do espectador, ao atravessar angustiadamente as quase 2h30 de exibição deste filme é lembrar-se de que se trata de uma história real.


Nenhum comentário:
Postar um comentário