segunda-feira, 8 de junho de 2009

Transplante de Medula Óssea em Salvador


A capital baiana voltará a ter unidades de transplante de medula óssea (TMO), ainda em 2009. O Hospital das Clínicas, já autorizado a realizar a cirurgia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), dará início aos transplantes em setembro. O Hospital São Rafael já foi aprovado na primeira vistoria e no início de 2010 passará a realizar TMO. Já o governo do estado desempenhará o procedimento até dezembro desse ano.

Em 2001, foi criado o Centro de Transplante de Medula Óssea da Bahia (CTMO-Ba), fruto do convênio estabelecido entre a Secretária da Saúde do Estado da Bahia (Sebab), Hospital Português e Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia (HEMOBA). A finalidade do centro era proporcionar à população soteropolitana uma opção terapêutica contra o câncer e outras doenças hematológicas e imunológicas. Após 3 anos de funcionamento, o CTMO já contabilizava 70 transplantes realizados, com 65% em média de sobrevida dos pacientes. Este número firmou a unidade entre as principais transplantadoras do país, sendo a segunda no Nordeste e única na Bahia.

O CTMO era composto pela Unidade de Transplante de Medula Óssea do Hospital Português, com dois leitos e um ambulatório e hospital-dia, no Centro de Atenção à Saúde Professor José Maria de Magalhães Neto (CAS), no qual eram realizados atendimentos pré e póstransplante. Desde maio de 2002, o centro já participava do Registro Internacional de Transplante de Medula Óssea (IBMTR), o maior banco de dados do mundo na especialidade, que congrega mais de 400 unidades de transplante de medula.

Antes do centro ser implantando na Bahia, os pacientes que precisavam do transplante eram encaminhados para Curitiba ou São Paulo. Com isso, a Sesab gastava cerca de R$ 600 mil/ano, apenas em transporte e diárias dos pacientes atendidos pelo SUS. Com a criação do serviço, a Secretária reduziu esse custo e também a fila de espera. Outro benefício foi a comodidade. Em 2004, o Dr. Ronald Pallotta, coordenador do CTMO-BA, afirmou que a instalação do centro em Salvador permitia que os pacientes tivessem o apoio da família durante o tratamento e não necessitassem mudar seus hábitos.

Em 2008, a Sesab investiu em unidades hospitalares públicas a fim de que as mesmas fossem credenciadas para realizar cirurgias de transplantes. Apenas no Hospital Universitário Professor Edgar Santos (HUPES), foram investidos R$ 600 mil para possibilitar o funcionamento de uma unidade TMO. Porém, no mês de março o convênio entre a Secretária e o Hospital Português, unidade que era cadastrada para realizar o procedimento,não foi renovado. A partir disso os pacientes passaram a ser atendidos e encaminhados para outros centros através do Tratamento fora de domicílio (TDF), com o apoio do estado.

A Secretária, contudo, havia feito um bom investimento no CTMO e a cidade tem hematologistas suficientes, equipe e equipamentos capacitados para oferecer este serviço. “É mais interessante para o estado e para a população ter uma unidade fortalecida porque nem todo mundo tem a acesso a isso”, afirma, o chefe de Hematologia do Hospital São Rafael, dr. Fernando Araújo, 43.

É necessário ter esse serviço. Mais de 120 baianos estão na fila de espera por um transplante de medula óssea, e, além disso, ao ter o serviço em Salvador o custo de R$ 600 mil que o SUS tem, apenas com transporte e diária, terá uma redução de 60%. Com os pacientes que já moram na cidade não haverá despesa alguma.

Segundo o dr. Araújo, o retorno do TMO contemplará até mesmo as pessoas que moram no interior, ao fortalecer as casas de apoio, como o GACC (Centro de Apoio as Crianças com Câncer).

O TRANSPLANTE

O transplante de medula óssea é um tratamento terapêutico complementar aos convencionais, como a radio/quimioterapia, e é proposto para algumas doenças que afetam as células do sangue.

É o caso dos linfomas (maioria das células neoplásicas concentradas em órgãos linfoides) e leucemias (maioria das células neoplásicas concentradas na medula óssea). O procedimento consiste na substituição de uma medula óssea doente, ou deficitária, por células normais de medula óssea, com o objetivo de reconstituição de uma nova.

A importância da medula óssea se dá pelo fato de ser um tecido líquido que ocupa o interior dos ossos. Nele são produzidos os componentes do sangue, ou seja, as hemácias (glóbulos vermelhos), os leucócitos (glóbulos brancos) e as plaquetas, e a partir daí são liberados para os locais nos quais são necessários. Pelas hemácias, o oxigênio é transportado dos pulmões para as células de todo o organismo e o gás carbônico vai para os pulmões, para ser expirado. Os leucócitos são os mais importantes no sistema imunológico, e as plaquetas agem no sistema de coagulação do sangue.

Existem tipos básicos de transplante. O mais comum é o autólogo/autogenético, realizado quando o doador e receptor são a mesma pessoa. O tipo alogênico acontece quando receptor e doador são pessoas distintas, eles precisam ser compatíveis, sendo consanguíneo (geralmente irmãos) ou não (através de bancos de medula). Por último tem-se o tipo raro, o singênico, realizado quando o doador é irmão gêmeo univitelínico do receptor.

O transplante pode ser feito a qualquer momento, depende da doença do paciente. Existem casos que ao descobrir o diagnóstico é necessário o transplante imediato, em outros as pessoas não respondem a quimioterapia e durante ele o transplante é requerido. E existem outros casos que o médico finaliza a quimioterapia e mesmo assim, o paciente necessita de um transplante. Então o transplante pode acontecer no início, meio ou fim do tratamento. Entretanto, novas drogas estão mudando a rotina do TMO. “Duas drogas estão chegando ao Brasil, mostrando que talvez o transplante de medula óssea seja usado em um momento posterior”, declara o Dr. Araújo.

Os resultados do transplante costumam ser bons, mas dependem de alguns fatores, como o estágio da doença quando foi detectada, as condições nutricionais e clínicas e o doador. Já os riscos se relacionam mais às infecções e às drogas quimioterápicas utilizadas no tratamento. Para o doador os riscos são poucos e se devem à necessidade de anestesia geral. Fora isso, dentro de poucas semanas sua medula óssea se recupera totalmente.

Enquanto as novas células não são capazes de produzir os leucócitos, as hemácias e plaquetas em quantidade suficiente, o paciente fica mais vulnerável às infecções e hemorragias. Por conta disso, ele deve ficar internado, em regime de isolamento, no hospital, até por conta dos cuidados com a dieta e a limpeza. Após a recuperação da medula, o paciente continua recebendo tratamento, porém em regime ambulatorial, sendo necessário por vezes comparecer ao hospital.

“É vital. É uma chance de viver. É a cura. É, na verdade, você receber uma medula zerada, saudável, perfeita. Para quem doa é mínimo, é um ato de amor. Para quem recebe é uma possibilidade de vida”. Esta é a afirmação, sobre a importância do transplante de medula óssea, da relações públicas, Bárbara Odilon, 39, diagnosticada com leucemia linfóide aguda, em fevereiro de 2009.

DOAÇÃO


Para o transplante ser realizado é necessário um doador. Ele deve ter entre 18 e 55 anos, e se dirigir ao GACC, Hospital São Rafael, Hospital das Clínicas ou HEMOBA e fazer um exame clínico. “Se você pensa na humanidade como um todo e tem uma responsabilidade social, por favor, pense na possibilidade de ser um doador, porque você pode realmente salvar uma vida. E quando o exame do HLA é feito, pode ser aqui em Salvador, mas ele fica disponível para o Brasil inteiro”, é o apelo que Bárbara faz.

Se for confirmado um bom estado de saúde, e se o doador for compatível com algum paciente, em todo o Brasil, é realizada uma curta cirurgia, de aproximadamente 90 minutos, durante a qual dele serão coletadas as células progenitoras capazes de constituir a medula óssea e infundi-se no receptor (paciente) após preparo adequado com o regime de condicionamento, ou seja, por altas doses de quimioterapia e/ou radioterapia que variam dependendo da doença.

Estima-se que seja por volta de 1/100 entre doadores parentes e de 1/1000 entre pessoas não aparentadas, e de acordo com o HEMOBA, o transplante de medula óssea é a única esperança de cura para milhares de portadores de leucemias e outras doenças do sangue. “Em alguns casos de linfomas e leucemias a forma de aumentar a sobrevida ou eliminar a doença por inteiro é o transplante”, explica o Dr. Araújo.
 



Reportagem radiofônica:

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