quinta-feira, 22 de abril de 2010

Manutenção de marca

por: Márvio dos Anjos

Por esses dias, amiga minha, gata indiscutível que mora no exterior, veio reclamar que um cara daqui, com quem ela ficava, tirou de seus álbuns do Facebook todas as fotos em que ela aparecia. A justificativa era que ele estava começando a namorar.

O problema, segundo ela, é que, ao se explicar, nosso herói se disse “confuso”: afirmou que ela era “especial” e que o problema era “a distância”. Ela me pediu opinião, e eu, certo de que fulano não era da Liga dos Bróderes, fui categórico: “Isso é manutenção de marca”.

Diante da promessa de algo bom na vizinhança, nosso herói resolveu apostar no presente e apagou o passado. No entanto, disse à minha amiga exatamente o que ela queria ouvir: “a distância”, “especial”… “confuso”.

O rapaz se pintou como um joguete do Destino, mas no fim queria mesmo era uma gata indiscutível de stand-by, numa das capitais mais visitáveis do mundo. Com suas palavras doces, também evitava o estresse: mais do que sinceridade, mulheres preferem mentiras sinceras.

(Além disso, repare na cumplicidade forjada: a “especial” sabe da oficial, mas a oficial não sabe da especial; assim, a especial tem uma confortadora sensação de superioridade. É como se um super-herói revelasse ao seu amor sua identidade secreta, algo que o mundo inteiro adoraria saber, mas só ela tem).

Homens e mulheres perpetram essa prática hoje, levados por vaidade, carência afetiva, garantia de sexo eventual, medo da solidão ou até uma patológica e sincera indecisão diante da oferta. Muito embora amor seja milagre – e milagre, como se sabe, é mais caro –, nunca antes na história deste país choveu tanto na horta dos solteiros e solteiras, e nunca se atribuíram tantos benefícios à vida sexual ativa – pele mais bonita, melhor funcionamento dos órgãos e, claro, histórias mais interessantes no papo com as amigas.

Com Facebook, SMS e todas essas vias de comunicação que dispensam o olho no olho, machos e fêmeas se tornaram investidores num mercado de ações afetivas. Periodicamente, observam a cotação das “empresas” em que têm “participação” e esperam o melhor momento para, de vez em quando, realizar “os lucros”. Homens costumam ser mais previsíveis, como adoramos ser: usam ciclos de tempo, dizem coisas agradáveis e mandam convites vagos, como “A gente precisa se ver, hein?”. É um jogo de controle e consumo.

(Aliás, outra amiga me contou que, ao deixar um camarada usar seu computador, ficou impressionada com o “método”: abriu seis janelinhas de chat, todas com rostos femininos, mandou um “Oi, gostosa!” para todas e, a partir daí, começou o leilão de sua noite).

Os métodos femininos são bem menos, hã, indexáveis. Normalmente é aquele milenar jogo de cena ao vivo: da provocação do ciúme à simulação de ciúme, passando até pelo ciúme-que-não-tem-razão-de-ser, tudo isso a fim de testar o magnetismo junto ao eleitorado. Mas alguns bróderes já identificam muitas acionistas cibernéticas, para espanto e precaução dos outros. Estamos alertas.

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