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Pude presenciar esses dias uma cena rara, que muitas de vocês pagariam para ver por puro prazer sádico. Naquela noite, éramos quatro amigos que conversavam sobre as mulheres que perderam (ou que vão perder), corações em frangalhos pedindo cerveja e falando abertamente de nossas dores.
Um bróder lamentava a mão do destino, que levava sua gata para longe; o outro queria saber o que fazia sua ex, que havia sido vista numa festa por um de nós; o terceiro bróder tinha dúvidas: voltar ou não para sua ex-vigente. E eu, que já vivi todos esses papéis, fazia o possível para dar-lhes a necessária “visão-de-fora” e levantar o moral da mesa. Estava difícil: a amargura daquela conversa fazia a cevada parecer mais doce.
(Por pura sorte, eu não estava à altura deles no momento: minha última desilusão tinha rolado semanas atrás, quando pedi o telefone de uma célebre musa da época da faculdade. Recebi dela um “não” tão digno e sereno que, juro, quase agradeci).
Diz o dramaturgo Domingos Oliveira que jamais deixaremos de sofrer por vocês, mesmo que muitas não acreditem muito nisso. É que choramos assim, em pequenos grupos, com discrição, porque perder a fama de mau é um golpe duro no marketing – e meus amigos sabiam disso.
Acompanhar aquela exposição de feridas sinceras me lembrava dos meus próprios lutos de amor. É que a mulher amada tem tanta magia que os verbos com ela conjugam passado, presente e futuro simultaneamente; se você tira isso de um homem contra a vontade dele, a cicatriz fica, por mais que seja possível soterrar alguns sentimentos com um pouco de, digamos, devassidão. E sim, baby, dói mais do que as senhoritas poderiam imaginar – vocês, que dão à luz, resistem muito mais à dor do que nós.
No filme “Vicky Christina Barcelona" (2008), de Woody Allen, em que o pintor Juan Antonio (vivido por Javier Bardem), passa uma cantada simultânea em Scarlett Johansson e Rebecca Hall, em falas tão deliciosas que, apesar de toda a cafajestagem, muitas mulheres adoram. Ao longo do filme, explica-se: tanta desenvoltura era uma resposta à perda do amor completo, que a artista Maria Elena (Penélope Cruz) lhe dava. Todas as outras estavam tão abaixo dela que, no fim, pouco importava quem cantar primeiro, e aí, ele teve que se reinventar.
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| Cena mencionada - Vicky Cristina Barcelona |



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