“Me, well, I’m a man of faith. Do you really think all this… is an accident? That we, a group of strangers survived, many of us with just superficial injuries? Do you think we crashed on this place by coincidence, especially this place? We were brought here for a purpose, for a reason, all of us. Each one of us was brought here for a reason.”“The island. The island brought us here. This is no ordinary place, you’ve seen that, I know you have. But the island chose you, too, Jack. It’s destiny.”(Falas do personagem Locke, na série Lost)
Acabei de assistir novamente ao último episódio da segunda temporada da série Lost (não se preocupem: “no spoilers ahead”). É fascinante observar a relação de cada personagem com os mistérios da ilha. Ao se perguntarem sobre o significado de tudo, eles se mostram caricaturas perfeitas dos seres humanos. Cada um de nós acredita com todas as forças em algum roteiro, em algum sentido, em uma mitologia pessoal que nos conforta e encaixa todas as peças perdidas em nossa mente, todos os retalhos de nossa história. Nós não só acreditamos que algo de fato aconteceu, mas agimos defendendo tal crença (observe os personagens Locke e Eko diante do contador).
Uma das coisas que gosto nos teóricos do neodarwinismo, como Daniel Dennett, é essa total ausência de télos, de sentido último, de finalidade. Não há Deus, não há natureza humana, não há ponto de referência algum, segurança alguma, fundamento nenhum. Não há nenhum princípio eterno, nada transcendente. Estamos sós, estamos jogados no mundo, estamoslost. É quase um existencialismo com bases biológicas. É quase um Budismo, mas sem as terceira e quarta nobres verdades (sem 90% do Budismo) – ensinamentos que focam a liberdade por meio da percepção da luminosidade e vacuidade dos fenômenos.
Se você observar o tecido social se movimentando, verá que cada um está buscando fazer sua própria revolução, cada um tentando fazer sua história, obter sucesso, etc. Justificamos nossas ações com nosso télos pessoal (o sentido da vida imanente às nossas crenças). Queremos ser PhDs, ganhar muito dinheiro, ter muito tempo livre e ser respeitados e amados. Basicamente é esse nosso objetivo. Gastamos todas as nossas energias nesse processo. Nossas metas e os caminhos que nos levam até elas são definidos por nosso télos, nosso sentido último para a existência. Fazemos um grande e incessante esforço para negar nossa condição lost e construir castelos de areia em cima de nosso auto-engano. Sem querer, viramos prisioneiros de nosso próprio destino, fechados em nossa microrevolução, condenados a repetição de scripts pré-fabricados coerentes com o sentido da vida que acreditamos ser concreto.
O que poucos percebem é que se alguém for bem-sucedido nesse caminho, será apenas um entre trilhões de seres que conseguiram chegar até o fim de seus castelinhos de areia, até o último ornamento, até a última torre, antes da próxima onda derrubar tudo. Seres que continuaram insatisfeitos e morreram ainda se esforçando para não ver que seus castelos eram de areia. Nossos télos pessoais não nos levam a lugar algum e não contribuem em nada para aqueles que não compartilham dele. Se eles ainda nos fizessem felizes… Mas nós mesmos somos os principais prejudicados: “Quando eu comprar meu apartamento, aí sim as coisas vão melhorar e eu vou poder relaxar e curtir a vida”; “Quando acabar a semana de provas, ficarei mais aliviado”; “Quando eu arranjar um bom trabalho, aí sim!”. Eu já ouvi inúmeros “aí sim” e alguns “agora sim!” que não duraram mais de uma semana. Você já conheceu alguém que disse “agora sim!” e ficou, simplesmente ficou aliviado por meses seguidos?
Se pudéssemos analisar cada momento, detalhada e exaustivamente como um cientista, veríamos que nossa vida não tem sentido algum. Nossa revolução pessoal é completamente dispensável. Nessa postura sem saída, começamos a não mais colocar tanta energia em nossa busca por um sentido, tantas movimentações para conseguirmos nosso sucesso. Qual o sentido então para viver? Devemos todos nos suicidar? Essas duas perguntas mostram bem o quanto sentimos que precisamos de um sentido para viver, de um chão seguro para andar. O suicídio é também motivado por algum télos. Sem télos pessoal, sem frustração. Qual osentido em se suicidar? O verdadeiro cético não se mata. Ele sorri.
E então, do existencialismo cortante, do neodarwinismo cru, da ausência de chão budista, pode naturalmente surgir uma disposição incessante. Como não estou tão focado em realizar meus sonhos samsáricos, posso olhar para fora e observar cada ser em seu trajeto rumo à felicidade, seguindo seu télos pessoal. Antes não tínhamos tempo nem energia para ajudar os outros. Agora temos tempo, energia, mãos e olhos — estamos finalmente disponíveis. Tal energia vem do alívio de superar o esforço, abandonar o constante auto-engano e simplesmente tocar a areia de nossos castelos e sentir as nuvens sob nossos pés. O que antes era chão definido, agora é nuvem que toma várias formas. O chão tinha a face de nossos medos e essa contração amedrontada era a base de nosso télos. As nuvens têm a forma de nossos sonhos. A ausência de chão nos libera para sonhar na medida em que nos desperta para a natureza onírica de nossa vida, para a textura deliciosa da areia de nossos castelos, para o frescor do mar que vem nos derrubar.
Aprendemos lentamente, como um bebê, a pronunciar: “O que eu posso oferecer?”. Imbricada em outras, aí sim nossa vida ganhará sentido — não apenas um, mas vários. Na ilha de Lost, vemos Locke agindo de acordo com sua crença em um fundamento e sempre buscando um sentido para sua vida, o significado real da ilha. O que aconteceria se ele acordasse para a ausência de fundação, para a inexistência de um significado último? Libertando-se de suas próprias memórias, de sua coerência interna que impulsionava suas ações, ele poderia se interessar pelas memórias dos outros, por suas histórias, coerências e ações. Para acordar e levantar, ele não mais precisaria pensar que a ilha é um milagre e que há um destino. Ele, como nós, não precisa de um chão para andar. Bastam nuvens para sonhar. E ele sonharia com sorrisos na face de todos os ilhados, não porque é esse o sentido último da ilha mas simplesmente porque esse é um bom sonho, uma imagem que o faz sorrir também. Locke não mais sairia em busca de seu destino, mas buscaria se inserir positivamente em cada destino sendo perseguido pelos seres ao seu redor. Em cada inserção, em cada conexão estabelecida, novos mundos surgiriam, novas formas das nuvens, novos sonhos sustentados coletivamente. Sua vida, enfim, seria enriquecida naturalmente, sem a necessidade alguma de sucesso, fama ou dinheiro. Na ilha de Lost é mais fácil entender que o sentido de uma vida surgirá sempre em sua conexão com outra.
Chegamos, então, a uma conclusão curiosa: o sentido da vida leva a uma vida sem sentido, e a ausência de sentido da vida leva a uma vida com sentido, uma existência significativa. Isto porque tal sentido transcendental, justamente por não ser sentido algum (vazio de significado, pura abertura), pode se expressar em uma rica multiplicidade de sentidos imanentes, mundanos, o que sacia até mesmo a nossa busca original!
Presos em uma jaula, sem ninguém lá fora, sem nenhum Deus, sem esperança alguma de descobrir o sentido de tudo, segurando apenas a certeza da morte, dois seres se beijam. Na ausência total de chão, nossa condição natural, eles não se matam, não se desesperam, não choram, não se deprimem: eles se beijam. Sem bondade cósmica, quando tudo explode em sangue e nada faz sentido, só nos resta a arte, só nos resta o amor, só nos resta nossa humanidade (não a inata, mas aquela que construímos a cada instante, diriam os existencialistas). Sem chão, restam nuvens sob nossos pés. Sem Deus, restam todos os outros, cada mundo, cada pessoa ao nosso redor. Sem roteiro último, os roteiros dos filmes ficam mais interessantes, mais reais — e o nosso próprio roteiro, em uma lógica inversa, mais interessante por se desvelar mais onírico. Os castelos continuam sendo de areia, mas agora não precisamos xingar as ondas. Podemos nós mesmos pisar em cada torre e sair andando pela praia. Continuamos ilhados, sempre, mas não há necessidade de resgate. Apenas ficamos e sorrimos. “Agora, sim!”…
* Publicado na revista de pensamento budista Bodisatva nº 17.


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